A deflagração da “Operação Infiltrados” pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) nesta quinta-feira (24) expõe um dos episódios mais sensíveis sobre a integridade e a transparência das forças de segurança pública do estado. A ação conjunta investiga um esquema estruturado de desvio e revenda de drogas apreendidas diretamente de depósitos policiais.
Por volta das 5h da manhã, equipes do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) chegaram à residência do delegado Hoffman D’Ávila, localizada no bairro Carandá Bosque, em Campo Grande. Alvo de mandado de prisão preventiva e de busca e apreensão, o delegado não se encontrava no local no momento da abordagem.
Durante as buscas na propriedade, o advogado de defesa, Amilton Ferreira de Almeida, realizou uma chamada de vídeo com o cliente, limitando-se a declarar que as diligências estavam em andamento. Para apurar se houve vazamento de informação privilegiada ou fuga antecipada, os investigadores recolhem registros de câmeras de segurança do entorno com o objetivo de mapear qualquer movimentação atípica realizada na madrugada.
A apuração teve início em outubro de 2025, desdobrando-se a partir de evidências coletadas nas operações “Traquetos” e “Blindspot”. Segundo o MPMS, o esquema funcionava pela subtração deliberada de entorpecentes, predominantemente cocaína, que deveriam ser apreendidos e incinerados. A droga era entregue a traficantes parceiros para posterior recolocação no mercado ilegal.
A Operação Infiltrados mobiliza 64 ordens judiciais expedidas para os municípios de Campo Grande, Dourados e Terenos:
- 24 mandados de prisão preventiva
- 02 mandados de prisão temporária
- 38 mandados de busca e apreensão
Até o momento, foram cumpridos mandados de prisão contra nove policiais civis, dois policiais militares e um policial penal. As ações contam com o apoio direto das corregedorias da Polícia Civil e Militar, Batalhão de Choque, Bope e Polícia Institucional do MPF.
Hoffman D’Ávila possui trajetória consolidada no combate ao narcotráfico em Mato Grosso do Sul, tendo chegado à chefia da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar). Em fevereiro deste ano, assumiu o comando do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Bancos, Assaltos e Sequestros) e, em junho, foi transferido para a 6ª Delegacia de Polícia Civil, na região das Moreninhas.
Além do desdobramento criminal imediato, a Operação Infiltrados gera um efeito cascata que atinge a credibilidade do sistema de justiça criminal como um todo:
1 – Fragilização da Cadeia de Custódia: Quando entorpecentes apreendidos retornam às ruas por meio de agentes públicos, todo o processo de fiscalização e apreensão de provas passa por questionamentos em processos judiciais em andamento, podendo gerar nulidades de prisões legítimas efetuadas no passado.
2 – Impacto na Segurança do Cidadão: O desvio sistemático de substâncias ilícitas realimenta a violência urbana e o financiamento de facções criminosas nas periferias, gerando um ciclo em que o próprio aparelho estatal é usado contra a sociedade.
3 – Necessidade de Reformas de Controle Interno: O caso coloca em evidência a urgência de implementar sistemas automatizados de rastreabilidade digital e auditoria independente nos depósitos de apreensão e corregedorias das polícias estaduais.

