A Polícia Federal (PF), em conjunto com a Receita Federal, deflagrou a “Operação Ifrit”, desarticulando uma organização criminosa internacional especializada em tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e desvio de entorpecentes. O grupo, apontado como liderado pelo chamado “clã Haidar”, contava com uma estrutura ramificada que incluía o uso de empresas de fachada, redes de “laranjas” e a cooptação de agentes de segurança pública, incluindo um delegado de elite.
Com base em investigações a partir de Ponta Porã (MS), na fronteira com o Paraguai, o esquema era gerido de forma centralizada por membros da mesma família. Mesmo cumprindo pena por homicídio em um presídio federal de Porto Velho (RO), “Maroan Fernandes Haidar Ahmed” é apontado como um dos principais articuladores e estrategistas do grupo, mantendo o envio de ordens, negociações de armas e controle financeiro mesmo de dentro da unidade prisional.
A cúpula decisória dividia-se com outros familiares de peso:
- Bassam Hassan Haidar Ahmed: Pai de Maroan, figura histórica na articulação com fornecedores estrangeiros de armas e drogas no Paraguai, além de gerenciar a ocultação de patrimônio em imóveis e empresas.
- Adel Hassan Haidar: Peça central no comando operacional e financeiro, descrito como principal elo da família com o esquema de corrupção policial.
- Nasser Hassan Haidar: Irmão de Bassam, focado no financiamento das operações e na gestão de recebimentos internacionais por meio de casas de câmbio paraguaias.
- Adule Vasques Haidar: “Homem de confiança” da alta cúpula, assumiu a gerência logística e o transporte rodoviário de entorpecentes após a prisão de Maroan.
Proteção Policial e Troca de Cocaína por Amido
Um dos pontos mais alarmantes revelados pela Operação Ifrit envolve a participação de autoridades de segurança pública em Mato Grosso do Sul. De acordo com os relatórios da PF, o esquema subornava policiais para garantir proteção, vazamento de informações sigilosas e facilidades operacionais.
Entre os investigados estão o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa — ex-titular da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) — e os policiais civis Andrey Elesbão Silva e Douglas Tobias. As investigações apontam que Hoffman teria determinado a restituição indevida de veículos apreendidos e participado do desvio de carregamentos de cocaína apreendidos na especializada, substâncias que eram posteriormente substituídas por amido e repassadas ao grupo criminoso ligado ao PCC.
Alcance Internacional e Bloqueio de R$ 300 Milhões
A rede criminosa não se limitava ao Mato Grosso do Sul, mantendo ramificações em estados como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso, além de fortes conexões internacionais com Paraguai, Bolívia, Argentina, Peru, Espanha e Portugal.
Para descapitalizar a organização, a Justiça Federal da 3ª Vara de Campo Grande determinou o bloqueio de ativos financeiros, contas e criptomoedas até o limite de R$ 300 milhões, além do sequestro de imóveis, veículos de luxo (como um Porsche Macan e caminhonetes blindadas), embarcações e aeronaves vinculadas aos 244 alvos investigados entre pessoas físicas e jurídicas.
A operação mobilizou mais de 450 agentes federais para o cumprimento de dezenas de mandados de busca, apreensão e prisão em sete estados brasileiros, marcando um duro golpe contra a articulação entre o narcotráfico transnacional e a corrupção dentro das forças de segurança.

