Tradição que prejudica: pintura de troncos de árvores em Pedro Gomes pode configurar crime ambiental

A prática secular de pintar os troncos das árvores com tinta à base de cal, conhecida como “caiar”, ainda persiste em muitas cidades brasileiras, especialmente em áreas urbanas e propriedades rurais. No entanto, o que muitos consideram um ato de proteção ou embelezamento é, na verdade, uma agressão ao meio ambiente – e pode ser enquadrado como crime, conforme a Lei Federal nº 9.605/1998, que dispõe sobre sanções penais e administrativas por danos ambientais.

A falsa proteção que prejudica

Durante décadas, acreditou-se que a pintura dos troncos evitava o ataque de insetos, fungos e bactérias. No entanto, estudos científicos e especialistas em botânica afirmam que essa técnica não só é ineficaz, como também pode sufocar a planta.

Deodato Peixinho, diretor de Parques e Jardins de Feira de Santana (BA), explica que algumas espécies realizam trocas gasosas através do caule. “A tinta impermeabiliza a superfície, impedindo a respiração da árvore e podendo levá-la à morte lenta”, alerta. Além disso, a cal altera o pH natural da casca, tornando-a mais suscetível a doenças.

Crime ambiental disfarçado de tradição

Apesar de muitas pessoas agirem por desconhecimento, a Lei 9.605/98 é clara: destruir, danificar ou lesar plantas de ornamentação em logradouros públicos ou áreas protegidas é crime, com pena de detenção de três meses a um ano, ou multa. A legislação não diferencia entre ações intencionais ou culturais – o dano ambiental é o que importa.

Embora a lei seja mais aplicada em casos de desmatamento ou podas ilegais, a pintura indiscriminada de árvores também pode ser enquadrada como dano à flora, especialmente se comprovado prejuízo à saúde da planta.

Paisagem artificial e desperdício de recursos

Além dos danos biológicos, Peixinho critica o impacto visual. “Árvores pintadas de branco criam uma paisagem artificial e descaracterizada. O natural é sempre mais bonito e saudável”, afirma. Ele sugere que, em vez de gastar com tinta, os cidadãos invistam em adubação orgânica e irrigação adequada, práticas que realmente beneficiam as plantas.

Conscientização como solução

Para mudar esse cenário, é preciso educação ambiental. Campanhas públicas poderiam esclarecer que a pintura não protege e, sim, prejudica. Enquanto a tradição resiste, árvores continuam sofrendo – e quem as pinta, mesmo sem saber, pode estar cometendo um crime.

A natureza não precisa de maquiagem. Precisa de respeito.

(Batista Cruz – Colaboração: Reh Freitas)


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