As portas de aço da residência em Campo Grande não escondem o peso do silêncio que agora acompanha a rotina do ex-juiz federal Odilon de Oliveira. Conhecido por sua atuação implacável contra o narcotráfico na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, Odilon hoje vive uma realidade que contrasta drasticamente com os anos em que seu nome era sinônimo de poder e, acima de tudo, de perigo. O homem que mandou para a cadeia os maiores barões da droga no país encontra-se, hoje, à mercê da própria sorte.
O debate sobre a proteção ao magistrado ganhou novos contornos após o resgate do histórico de sua segurança. A decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que determinou a retirada da escolta da Polícia Federal ocorreu no dia 21 de agosto de 2018, sob a justificativa de que os motivos de segurança haviam mudado após sua aposentadoria em 2017 e o ingresso na vida política. Posteriormente, em fevereiro de 2019, a proteção foi descontinuada de forma definitiva.
“A gente trabalha a vida inteira nesse Brasil. Renuncia à liberdade, renuncia à vida, e a família fica presa dentro de casa. Quando se aposenta, o Brasil joga o juiz no lixo, como se fosse uma bucha de laranja. E ele fica fragilizado, à disposição da criminalidade que combateu a vida inteira,” desabafou o ex-juiz em entrevistas recentes.
A trajetória do juiz Odilon de Oliveira confunde-se com a história do combate ao narcotráfico nas regiões de fronteira do Brasil:
Nascido no sertão de Pernambuco em 1949, Odilon migrou com a família para Mato Grosso ainda na infância e construiu sua carreira por meio de concursos públicos. Assumiu o cargo de juiz federal em 1987.
Atuação na Fronteira: Ao atuar na 1ª Vara Federal de Ponta Porã (MS), município vizinho à cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, tornou-se o principal magistrado a julgar casos de grandes organizações criminosas e do narcotráfico internacional na região.
Durante sua carreira, determinou a prisão de centenas de traficantes, incluindo nomes de alta periculosidade, e confiscou cerca de 2 bilhões de reais em bens ilícitos, como fazendas, aviões e mansões.
Devido ao rigor de suas sentenças e ao volume dos processos (que chegavam a milhares de páginas), tornou-se a autoridade mais ameaçada do país, chegando a morar dentro do Fórum de Ponta Porã por cerca de quatro meses após o desmonte de uma emboscada em 2007.
A vulnerabilidade do magistrado aposentado sem escolta foi destaque em reportagens e documentários de redes de televisão, que exibiram o drama do juiz vivendo sob tensão constante. Em uma matéria veiculada pela TV, foi relatado o episódio em que a residência de Odilon chegou a ser invadida por um criminoso — um caso comum de furto que, dada a notoriedade do magistrado e o medo constante de represálias do crime organizado, causou enorme pânico e reforçou a necessidade de segurança.
O documentário Odilon, O Réu de Si Mesmo, da HBO Max, e coberturas de programas como o Conexão Repórter do SBT também mostraram os detalhes dessa rotina, onde o ex-juiz se sente um “prisioneiro” em sua própria residência, sem poder contar com a proteção oficial do Estado.
Quase nove anos após deixar a magistratura, a situação do ex-juiz permanece crítica e gera debates sobre a proteção de autoridades no Brasil:
Odilon vive sem escolta policial desde 2019, mesmo após relatar diversos episódios de ameaça de morte e tentativas de atentado contra a sua vida ao longo de sua trajetória.
Em busca do direito à segurança, ao menos para o deslocamento em atividades externas, solicitando escolta em período parcial, o ex-juiz recorreu novamente ao Judiciário, apresentando dossiês com cerca de 3 kg de documentos que reúnem registros de ameaças.
O caso reacendeu discussões sobre a desproteção enfrentada por servidores, policiais e magistrados que atuam na linha de frente contra o crime organizado após encerrarem suas carreiras.
O abandono de figuras emblemáticas como o ex-juiz Odilon de Oliveira escancara uma falha estrutural e moral do Estado brasileiro. Ao desmobilizar os esquemas de proteção assim que o servidor encerra suas funções, o sistema envia uma mensagem perigosa: a de que o sacrifício pessoal e a coragem institucional são descartáveis.
Em vez de garantir a integridade daqueles que arriscaram a própria vida e a de suas famílias para enfrentar o crime organizado, o aparato estatal os deixa à mercê da própria sorte. Essa omissão não apenas coloca em risco a vida de magistrados e policiais, mas cria um desestímulo institucional que afeta as futuras gerações de agentes da lei, demonstrando uma fragilidade que fortalece, em última análise, a impunidade das facções criminosas.
