Em mais um capítulo que só parece fazer sentido no cenário caótico das concessões rodoviárias brasileiras, a concessionária Motiva (antiga CCR MS Via) venceu o leilão da BR-163/MS, a mesma rodovia que administrou – e negligenciou – desde 2014. A vitória da empresa, que cumpriu menos de 18% de sua meta de duplicação na gestão anterior, é um retrato escancarado de um sistema que premia o descaso e transfere a conta para o usuário.
Conteúdo
O fracasso que virou prêmio
Entre 2014 e 2024, a CCR MS Via (agora Motiva) protagonizou uma gestão marcada por adiamentos, obras inacabadas e reajustes tarifários acima da inflação. Prometeu duplicações, mas entregou migalhas: apenas 18% do previsto. Agora, sob nova roupagem e novas promessas, a empresa se compromete a duplicar 847 km em 29 anos – prazo que se estende até 2054, ao custo de pouco mais de R$ 16,5 bilhões.
A pergunta que fica: por que uma concessionária com histórico de não cumprimento das metas continua habilitada a administrar a mesma rodovia? A resposta parece estar no jogo de pressão e cansaço que envolve o poder público e os grandes grupos econômicos. Como diz o ditado, “quem não chora não mama” – e a Motiva chorou o suficiente para ser recompensada com mais três décadas de concessão.
O usuário paga, e sempre pagará mais
Enquanto a população espera por melhorias, os reajustes tarifários já estão calculados e serão repassados:
- 30% de aumento para trechos duplicados;
- 15% para faixas adicionais em pista simples;
- 5% a 10% para vias duplas.
Ou seja: antes mesmo de qualquer obra sair do papel, o bolso do motorista já pode ir se preparando para o impacto. E, considerando o histórico da concessionária, há sérios riscos de que os reajustes venham, mas as obras continuem no ritmo atual – lento e insuficiente.
As promessas
O novo contrato prevê:
- 203 km de duplicações;
- 170 km de faixas adicionais;
- 467 km de acostamentos;
- 44 passarelas para pedestres.
São números ambiciosos, mas que ecoam as promessas não cumpridas da última década. E, se o padrão se repetir, em 2054 poucos estarão vivos para cobrar – ou sequer lembrar – o que foi acordado.
O ciclo vicioso das concessões no Brasil
O caso da BR-163 é sintomático: uma empresa que falha em sua obrigação não só permanece no jogo como sai vitoriosa em um novo leilão. E quando as metas se tornarem inviáveis? Basta alegar “dificuldades financeiras” e convocar um novo leilão, reiniciando o ciclo.
Enquanto isso, o contribuinte paga a conta duas vezes: na tarifa abusiva e na infraestrutura que não sai do papel. Resta saber até quando o Brasil continuará aceitando esse teatro, onde o prêmio por fazer pouco é a chance de fazer ainda menos.
O que esperar?
Que em 2054 alguém lembre deste texto – e, se a história se repetir, prepare-se para a próxima concessão.
Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado
