Enquanto cidades vizinhas como Coxim(MS) e Rio Verde(MS) movimentam hotéis, bares e o comércio com programações de Carnaval, moradores de Pedro Gomes(MS) que apreciam a folia precisaram pegar estrada para aproveitar o feriado. Além do gasto maior, enfrentam o risco das rodovias para buscar em outras cidades o que não encontraram no próprio município.
Nos últimos anos, o Carnaval foi gradativamente desaparecendo do calendário local. Agora, no período em que tradicionalmente haveria festa popular na praça central, o chamado Espaço Cultural, o que se vê é a organização de um evento religioso incentivado diretamente pelo chefe do Executivo.
Nas redes sociais, o prefeito divulgou a programação com entusiasmo. Parte da população passou a chamar a iniciativa de “Carnagospel”. Mas é preciso colocar as coisas no lugar: não existe Carnaval gospel. O que há são eventos evangélicos realizados no mesmo período da festa tradicional. A expressão é uma tentativa moderna de adaptar linguagem, mas Carnaval, historicamente, é manifestação cultural popular, plural, diversa e laica.
O debate não é sobre fé. Cada igreja tem total direito de promover seus cultos e encontros. O ponto central é outro: quando o poder público deixa de incentivar uma manifestação cultural tradicional da cidade e assume postura ativa em favor de um evento de cunho religioso, a discussão deixa de ser apenas cultural e passa a ser política.
Consulta ao Portal da Transparência não aponta repasses específicos para o evento. Ainda assim, a mobilização pessoal da principal autoridade do município em torno da celebração religiosa chama atenção. Afinal, trata-se de uma agenda institucional ou de uma iniciativa alinhada à identidade pessoal do gestor?
Carnaval é economia girando. É ambulante vendendo, comércio aberto, visitante circulando. Quando não há programação local, o dinheiro vai embora junto com os foliões. E cidade pequena não pode se dar ao luxo de perder movimento econômico por decisão ideológica.
Substituir a festa popular por culto não é inovação cultural. É mudança de direcionamento. E isso precisa ser debatido com maturidade.
Fé é assunto individual. Gestão pública é coletiva.
Que cada um celebre como quiser. Mas que o município não feche as portas para parte da sua própria população em nome de uma visão única.
Na Quarta-feira de Cinzas, começa a Quaresma para os cristãos. Que ela sirva também como tempo de reflexão sobre qual cidade se quer construir: uma que acolhe diferenças ou uma que escolhe um lado só do palco.
