Enquanto gestores municipais buscam capital político com a chegada de novos ônibus, a obrigatoriedade da rede autorizada para reparos, mesmo com verba federal, cria um gargalo que prejudica a continuidade do transporte de estudantes.
A cena se repete em prefeituras por todo o país: a cerimônia de entrega de ônibus escolares do programa Caminho da Escola, do governo federal. Veículos amarelos, zero quilômetro, são apresentados como uma grande conquista da gestão municipal. O que o discurso oficial não menciona, no entanto, é o emaranhado burocrático e logístico que começa assim que as chaves são entregues, e que pode deixar esses símbolos de progresso encostados na garagem.
Analisando a fundo esse programa, “a grande parte dos gestores quer levar o mérito da aquisição, visando obter uma opinião positiva de um eleitorado”. De fato, o esforço do município se resume a uma bem-sucedida articulação política para conseguir o veículo. A real prova de fogo para a administração pública, no entanto, começa após a foto oficial.
Apesar de o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) repassar recursos financeiros específicos para a manutenção dessa frota, um detalhe crucial esvazia a autonomia do município e se transforma em um pesadelo logístico: a obrigatoriedade de realizar os reparos na rede autorizada do fabricante, especialmente durante o período de garantia.
Essa exigência, que à primeira vista parece garantir qualidade técnica, ignora a realidade geográfica e econômica do Brasil. Muitos municípios, sobretudo os do interior e de regiões afastadas dos grandes centros, não possuem concessionárias ou oficinas autorizadas em um raio de centenas de quilômetros.
O resultado prático é que uma manutenção corretiva simples – como a troca de um componente elétrico ou a reparação de um sistema de freios – se transforma em uma operação de guerra. O veículo precisa ser levado até a cidade onde se encontra a oficina autorizada, gerando custos adicionais de transporte, diárias para motoristas e, o mais crítico, longos períodos de inatividade do ônibus. Enquanto isso, estudantes ficam sem transporte, e o recurso federal, que deveria garantir mobilidade, fica parado.
A questão central não é a destinação de verba – ela existe –, mas a falta de flexibilidade do programa. O município recebe o dinheiro, mas é forçado a gastá-lo de uma única forma, muitas vezes inviável. Em vez de empoderar os gestores locais para resolverem o problema com a oficina mais ágil e competente da região, o programa os prende a uma burocracia que privilegia a marca do veículo em detrimento da urgência do serviço.
Conclui-se, portanto, que o Caminho da Escola, embora essencial para renovar frotas envelhecidas, peca por criar uma solução pela metade. Ele entrega o veículo, entrega o recurso, mas amarra as mãos do município com regras que não dialogam com a logística do país real. O programa acaba transferindo para o gestor local um ônus operacional que mancha o brilho amarelo dos novos ônibus e, no fim da rota, deixa para trás o principal beneficiário: o aluno que depende desse transporte para chegar à escola.
