Moradores denunciam que lotes destinados à subsistência estariam sendo entregues a aliados do prefeito Cassiano Maia, ignorando famílias que aguardam há décadas por regularização.
O silêncio matutino do Cinturão Verde, em Três Lagoas(MS), tem sido substituído pelo eco de uma indignação crescente. O motivo não é a lida no campo, mas a caneta do Executivo Municipal. Uma decisão recente da gestão do prefeito Cassiano Maia acendeu um alerta sobre os critérios de transparência da prefeitura ao conceder termos de cessão de uso provisório de áreas na região para figuras conhecidas nos bastidores políticos locais.
No centro da controvérsia estão nomes como “Caju” e Airan, ambos apontados por residentes como aliados de primeira hora do grupo político que comanda a cidade. Enquanto o documento de cessão chegou às mãos desses apoiadores com celeridade, o mesmo não ocorreu com as famílias que, há gerações, calejaram as mãos naquelas terras esperando por um aceno do poder público.
A reportagem ouviu relatos de moradores que descrevem um processo de seleção invisível. Não houve reuniões comunitárias, editais claros ou chamamentos públicos. “Tem gente aqui que está há anos esperando regularização e nunca foi chamada para nada. De repente, aparecem nomes ligados à política já com documento na mão”, desabafou um produtor que, sob a condição de anonimato, revelou o clima de medo de represálias que paira sobre a comunidade.
Para quem depende do solo para colocar comida na mesa, a chegada de novos “beneficiários” sem histórico de produção na área é vista como um tapa na face da justiça social.
A denúncia contra o beneficiário conhecido como Caju é ainda mais específica e grave. Segundo os vizinhos, ele sequer residiria no Cinturão Verde, descumprindo o requisito básico do programa, que visa amparar quem vive e trabalha na terra.
Mais do que a ausência física, os moradores apontam que o lote concedido a Caju estaria sendo sublocado para terceiros. Se confirmada, a prática de aluguel configura uma violação direta das regras de cessão de uso, que exigem a utilização direta pelo beneficiário para moradia ou produção agrícola. Em termos jurídicos e éticos, o cenário desenhado é o de uso de patrimônio público para fins de clientelismo político.
O Outro Lado
A situação coloca a atual gestão sob pressão para explicar por que o critério de proximidade política parece ter pesado mais que o histórico de ocupação e a necessidade social. Até o momento, o que se vê no Cinturão Verde é o contraste entre o documento oficial assinado em gabinetes e a realidade de quem, sem apoio, continua à margem da regularização.
