O brasileiro tem uma relação curiosa, para não dizer hipócrita, com a política. Enchemos o peito em jantares de família, mesas de bar e publicações de redes sociais para bradar que “não gostamos de política” e que “todo político é corrupto”. No entanto, a mesma boca que cospe o desdém é a que consome o noticiário político diariamente, que se exalta em atos cíveis e que, de dois em dois anos, caminha até a urna eletrônica. Mas a grande questão que este ano eleitoral nos impõe é: quando apertamos o “confirma”, estamos exercendo um voto consciente ou apenas cumprindo um ritual por pura comodidade?
A repulsa generalizada virou uma cortina de fumaça perfeita para a manutenção do status quo. Ao dizer que “ninguém presta”, o eleitor se exime da responsabilidade de pesquisar, comparar e fiscalizar. O resultado dessa indolência coletiva está à vista de todos, especialmente em Mato Grosso do Sul.
No nosso estado, a política virou profissão hereditária e vitalícia. Assistimos a figuras públicas que se eternizam no poder, pulando de cargo em cargo, de partido em partido, como se as cadeiras do Legislativo e do Executivo fossem propriedades privadas registradas em cartório. Será que tamanha longevidade é fruto de uma competência extraordinária que transformou a realidade do povo sul-mato-grossense? Ou será que, nas entrelinhas, o que se perpetua é uma engrenagem bem lubrificada de redes de clientelismo, controle de redutos eleitorais e letargia do eleitor?
O cenário atual desenha essa realidade sem qualquer pudor. O fenômeno mais nítido da temporada é o “candidato a tiracolo”. Vemos uma influente senadora da nossa bancada cruzando o estado, de município em município, carregando pelas mãos um pretenso postulante à Assembleia Legislativa. Um nome desconhecido, que sequer goza de expressão ou histórico de serviços prestados na cidade onde se criou, mas que agora surge sorridente nos panfletos e palanques.
A pergunta que o cidadão de Mato Grosso do Sul precisa fazer, sem anestesia, é: O que esse candidato tem a oferecer?
A resposta provável não está nas propostas dele — que mal conhecemos —, mas sim no peso das benesses, das emendas parlamentares e dos conchavos que sua madrinha articula nas altas esferas dos governos estadual e federal. O que se vende ali não é um projeto de melhoria para a saúde, educação ou segurança do povo; vende-se o acesso ao poder. É a velha política do “quem indica”, fantasiada de renovação. O eleitor é convidado a votar no espelho da senadora, correndo o risco manifesto de eleger mais um parlamentar focado unicamente em olhar para o próprio umbigo e garantir a sobrevivência de seu grupo político.
Para piorar o banquete do pragmatismo amoral, testemunhamos casamentos de conveniência que desafiam qualquer coerência ideológica. Candidatos que outrora trocavam acusações graves agora dividem o mesmo palanque, trocam tapinhas nas costas e juram amor eterno em nome da governabilidade, ou melhor, da sobrevivência eleitoral. Unir-se a antigos inimigos em troca de tempo de TV, fundo partidário ou nacos de poder destrói o último pilar que deveria sustentar a política: a dignidade.
Um candidato que se vende ou que relativiza seus princípios a esse ponto vale o respeito de seus eleitores?
Se o eleitor continuar votando por comodidade, por simpatia estética ou porque “o deputado ajudou um conhecido”, o teatro continuará o mesmo. O voto não pode ser um ato mecânico de transferência de privilégios. Em 2026, diante da urna, o cidadão de Mato Grosso do Sul precisa decidir se quer continuar sendo massa de manobra para os conchavos de gabinete ou se finalmente usará o voto como a ferramenta crítica que ele deve ser. Afinal, quem aceita ser carregado a tiracolo na campanha, passará o mandato inteiro de costas para o povo.

