SONORA VIROU CENÁRIO. O PROBLEMA É QUE NINGUÉM MORA NO PALCO

Atualidades

Há algo profundamente errado quando uma cidade passa a investir mais energia em parecer bem do que, efetivamente, estar bem.

Sonora parece viver um fenômeno cada vez mais comum na política moderna: a substituição da gestão pelo espetáculo. Em vez de a administração ser avaliada prioritariamente pela capacidade de resolver problemas históricos e melhorar a qualidade dos serviços públicos, a atenção se desloca para eventos grandiosos, campanhas de divulgação e ações capazes de gerar forte repercussão visual.

A impressão que cresce entre parte da população é a de que o governo descobriu que um show lotado produz imagens mais atraentes do que uma rua abandonada, que um artista de renome gera mais engajamento do que uma consulta médica realizada e que um palco iluminado consegue esconder problemas estruturais com muito mais eficiência do que qualquer discurso oficial.

Dessa forma, a cidade vai sendo cuidadosamente maquiada.

Não importa que antigas reivindicações continuem sem solução definitiva. Não importa que moradores de diferentes regiões sigam cobrando respostas para problemas que atravessam administrações. Não importa sequer que existam demandas urgentes disputando espaço dentro de um orçamento público que, por natureza, deveria priorizar aquilo que é essencial.

O importante parece ser que as luzes permaneçam acesas, que os drones registrem imagens impressionantes, que as redes sociais multipliquem conteúdos positivos e que as manchetes falem da grandiosidade da festa.

A política do espetáculo raramente governa para resolver problemas; ela governa para impressionar. E impressionar, convenhamos, costuma ser muito mais simples.

Resolver exige planejamento, competência administrativa, capacidade de execução e disposição para enfrentar desafios muitas vezes impopulares. Impressionar, por outro lado, exige apenas uma boa estratégia de marketing.

Resolver deixa legado.

Impressionar produz postagem.

Resolver transforma a vida das pessoas.

Impressionar produz números momentâneos de alcance e engajamento.

A pergunta que Sonora precisa responder é simples: em que momento a administração pública passou a tratar a população como plateia?

Porque quem vive nos bairros não mora dentro da arena da Exposonora. Quem depende diariamente dos serviços públicos não ocupa camarotes. Quem paga impostos e sustenta a máquina pública não vive sob os refletores.

A vida real começa justamente quando o último show termina.

E é nesse instante que a propaganda encontra a realidade.

O palco é desmontado. Os artistas deixam a cidade. Os contratos são pagos. As luzes se apagam.

A população, entretanto, permanece.

Permanece aguardando respostas para problemas antigos, convivendo com dificuldades que continuam sem solução e ouvindo promessas que, muitas vezes, se repetem de um ano para outro.

A história mostra que governos costumam perder a capacidade de perceber a realidade quando passam a confundir popularidade com eficiência administrativa.

Aplausos não representam obras concluídas.

Curtidas não significam resultados concretos.

Eventos não substituem gestão.

E festas, por mais grandiosas e bem produzidas que sejam, jamais resolveram problemas estruturais, reduziram filas de atendimento ou atenderam, por si só, às necessidades permanentes de uma população.

Talvez a pergunta mais incômoda para a administração seja justamente a mais simples.

Se os milhões destinados à produção do espetáculo fossem investidos diretamente nas demandas que a própria população aponta diariamente, Sonora estaria em situação melhor hoje?

Se a resposta for positiva, então o debate nunca foi sobre a realização da festa.

O debate é sobre prioridades.

E prioridades, mais do que discursos, revelam aquilo que um governo realmente considera importante.

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